Conversa besta

Thursday, December 23, 2004

Manaus (IV)

Bom, agora está calminho, calminho, aqui no trabalho. Então, mais um dos textos de Manaus. Tenham fé, falta pouco. Enquanto isso, vou reunindo idéias para escrever, quando acabar o revival da minha saga amazônica.

Abs

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Oi, meus amores, 8/9

Como vão as coisas por aí?

Aqui, trabalho, calor e umidade demais. E vontade de ir embora também. Está sendo bacana, mas torço que o restinho de tempo em Manaus passe logo. Nada contra o lugar ou as pessoas, por mais que ambos sejam meio esquisitos. É que não é para mim mesmo.

Passei o sábado e o domingo em um hotel de selva. De Manaus até o Ariaú são duas horas e meia de barco, subindo o rio Negro. A paisagem é linda. Na viagem, vi boto cor-de-rosa (lilás, na verdade, bem viadinho) e boto tucuxi (cinza, feioso, mas igualmente serelepe). Eles ficam dando pinta para os barcos, pulando e se mostrando pra gente.

Primeiro, a gente chega ao impressionante Ariaú Towers. Oito torres erguidas sobre o rio, palafitas chiques no meio da floresta, com quartos superequipados, para gente que pode pagar perto de 500 pratas pelo pacote básico (dois dias, uma noite). Não é para o meu bico.

O hotel em que fiquei, o Terra Verde, é bem mais simples. Mas não ruim. Fica distante mais 40 minutos de barquinho do Ariaú. A estrada, na verdade, são igarapés (braços de rio) e igapós (mata alagada).

São 12 chalés à margem do rio Negro. Andei pela mata por três horas e vi coisas incríveis. Me entupi de peixes regionais – pirarucu, tambaqui, pacu e jaraqui – e me fartei da deliciosa farinha de mandioca daqui. De sobremesa, cajus colhidos no pé.

Nadei no rio Negro, com o sol tostando a moleira. No meio do banho, chegou um barqueiro do hotel e desenvolveu o seguinte diálogo:

- O que é que vocês estão fazendo?
- Tomando banho, ora! Por que?
- Por nada. Os jacarés lá do outro lado da margem devem estar se divertindo com o banho de vocês...

Minha gente, foi um alvoroço, eu e Gerard (marido de Taíza, minha amiga) tentando sair do rio e escorregando nos troncos cheios de lodo. Foi engraçado! Felizmente, os répteis não vieram nadar conosco.

À noite, foi uma galhofa. Júlio, a bicha de dois de altura por dois de largura, dando pinta toda hora por conta dos besouros e demais víveres alados, que existem aos montes. Pra completar, Nêgo, nosso mateiro guia, inventou de dizer que na noite anterior teve onça rondando o hotel. Pronto, o viado quase surta! Depois, voltou gritando do quarto dizendo que tinha rato. Era uma lagartixinha besta, que saiu da toca, assustada com a biba-gigante.

E como se não bastasse, à uma da manhã, caiu um breu incrível no hotel. O gerador de energia pára e nada mais funciona. As pupilas tentam enxergar algo além do clarão da lua na janela. Mas não dá.

E o calor? Praticamente uma sauna! Ninguém dormiu direito. E estão achando muito? Esperem só para ler o martírio imposto pelas carapanãs (mosquito, muriçoca). Elas infernizam a vida do sujeito! E ainda por cima são podólatras! Só picam os pés! Voltei com os meus parecendo peneiras: 11 picadas no esquerdo e 13 no direito. Suspeito que as carapanãs que me picaram são bichas (11+13=...)

Fotos dessa jornada ainda não tenho. Já as revelei, mas falta passar no scanner para eu poder enviar para vocês. Vou ver se faço isso ainda esta semana.

Quando tudo acabar e eu estiver de saída de Manaus, quero ir ao Ariaú (com esquema "de grátis", é lógico!). Tudo do bom e do melhor, passarelas quilométricas na altura da copa das árvores, macaquinhos passeando do seu lado, e turistas, muitos turistas, gringos na maioria, cada um mais lindo do que o outro!

Bom, deixem eu ir, que um comício me espera.

Beijos enormes.


Tuesday, December 21, 2004

Manaus (III)

Rapidinho, porque eu tô com pressa. Acordei de ovo virado hoje e já bati boca com a chefia. Pra eu mandar tomar no cú , tá faltando bem pouquinho.

Esse texto trata de política. Já está meio fora de tempo, porque foi escrito pouco antes das eleições. Mas se estiverem a fim de ler, tem uma pequena análise da situação política de Manaus e do Amazonas.

Abraços

RH

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Queridos todos, 31/8

Desculpem mais um email assim, coletivo, mas é como dá para escrever.

Três semanas depois, Manaus já me assusta. Nada a ver com observações antropológicas, climatológicas, geológicas, morfológicas ou viadológicas. Isso eu tenho tirado de letra e até me diverte. O que me estarrece nos últimos dias tem a ver com política, lei, status-quo.

A corrupção, a rapinagem, o convencimento pela propina, a cretinice, o mau-caratismo e falta de respeito generalizada, lastreados por um incrível e inabalável conformismo, parecem ter forjado o caráter desse povo. As exceções – que felizmente existem, como em qualquer regra – não redimem o descaramento com o qual os assuntos são tratados aqui. Do mais prosaicos aos mais importantes.

Prosaico – Meu queixo caiu quando, no ônibus, um sujeito de seus 40 e poucos anos, sentado na fileira do lado, raspou o peito com a garganta e concluiu com uma cusparada catarrenta no assoalho. Não me contive e retruquei, verde de nojo, quase botando os bofes para fora – "Que homem nojento!". Aí, uma moça que estava sentada no mesmo banco que eu indignou-se – "Que frescura! E você queria que ele cuspisse aonde (sic)?" É assim e eles acham normal.

Importante – Agora é uma questão jornalística. A ética, que eu teimo em acreditar existir e ser imprescindível no exercício da minha (e de qualquer outra) profissão, é ferida de morte todos os dias por boa parte dos comunicadores barés*. É comum, e muito, jornalista aqui trabalhar como assessor do governo do estado ou de políticos de manhã e à tarde atuarem como repórteres nas redações. O cúmulo maior: uma subeditora (!) de Política (!!) de um jornal (!!!) é assessora de imprensa de um senador da República (!!!!!)...

Minha Nossa Senhora do Bom Jornalismo, sei que a senhora costuma operar poucos milagres, mas interceda, ó santinha querida, porque se isso não é antiético, não sei mais o que diabos é. Barbosa Lima Sobrinho deve estar em cólicas na cova. Eles argumentam que ganham pouco, que sempre foi assim, e que daqui pra frente nada vai ser diferente.

E isso é natural, é estabelecido, é status-quo, quase uma instituição local. Quem for doido que discorde, que ache errado, que considere inadequado. Pois eu sou doido, acho tudo isso e assumo.
Em retaliação, já virei assunto na cidade, vejam só! Primeiro, especularam quem sou eu, de onde venho e para fazer o que. Assim que descobrirem, deverão se ocupar em saber o que faço na cama... risos...

No mais, a campanha eleitoral segue rente ao chão, bem rasteira, e os níveis de tensão e adrenalina começam a ficar insalubres. É muito roubo, muita manipulação, muito comprometimento político das supostas autoridades eleitorais... Enfim, aquilo tudo que é comum a qualquer pleito. Só que aqui parece ser pior.

Porque um grupo político que faz revezamento de cargos público em quatro estilos – governador, prefeito, senador e deputado federal – (OK, é o espírito olímpico de Atenas 2004) está no poder há um quarto de século não quer largar o osso. Nem as tetas. Quem são eles? O candidato a prefeito Amazonino Mendes (PFL), o senador Gilberto Mestrinho (PMDB) e o governador Eduardo Braga (PPS).

Amazonino – Candidato a prefeito pelo PFL, é também conhecido como Negão, ou Abelha (seu símbolo de campanha é uma abelhinha boboca e viadérrima que encanta as criancinhas). Tem várias pessoas ligadas a ele que estão envolvidas na Operação Albatroz, da Polícia Federal, que prendeu 20 pessoas e já indiciou outras 50 acusadas de participar de um esquema de corrupção montado há dois anos para fraudar licitações públicas do Estado. Pelo ralo, já escorreram, pelo menos R$ 500 milhões.

Até agora, os envolvidos (para citar os tambaquis graúdos, não os pacus miúdos) são:

  • um ex-secretário de Fazenda de Braga e Amazonino (na época em que este era governador);
  • um ex-secretário de Infra-estrutura, que atualmente é o candidato a vice na chapa de Amazonino;
  • os atuais secretários dessas duas pastas;
  • o presidente da Comissão Geral de Licitações do Estado, que deixou o cargo;
  • um vereador que é secretário de governo atualmente;
  • um deputado estadual apontado como líder do esquema, dono de várias empresas que "ganhavam" as licitações, mas em cujos contratos sociais aparecem nomes de laranjas;

PS1: Amazonino já foi contra Mestrinho e Braga. Hoje, é aliado dos dois.

Mestrinho – Seu indefectível bigodinho o faz parecer com o Amigo da Onça, o personagem dos quadrinhos criados pelo pernambucano Péricles Maranhão, nos anos 40 do século passado. É padrinho político do deputado apontado como líder do esquema desmontado pela Operação Albatroz.

PS2: Já foi contra Amazonino e Braga. Hoje, é aliado dos dois.

Braga – Boa pinta, cara de bom moço, tenta há 20 dias convencer a opinião pública de que não sabia de nada do escândalo que corroeu as finanças e a credibilidade de seu governo.

PS3: Já foi contra Amazonino e Mestrinho. Hoje, é aliado dos dois.

Mestrinho, é verdade, está afastado do foco desse rebuceteio. Está doentinho. Fez cateterismo dia desses. Os outros estão envolvidos até a medula. Juram inocência. Alegam perseguição do governo Lula. São probos, honestos, ilibados. Exemplos de homens públicos.
Então, tá. Mas a mim eles não conseguiram convencer. Mas quem sou eu mesmo? Um coitado de um jornalista liso e (ainda) meio romântico, que só quer fazer seu trabalho corretamente (sempre), ganhar sua grana (bastante), e picar a mula daqui (rapidinho)!

Como se diz lá no Nordeste, quando algo demora muito para acontecer, "chega o Natal, mas não chega 3 de outubro (ou 24, se houver segundo turno)"!

Ah, antes que eu me esqueça, PS4: com toda essa merda fedendo, Amazonino lidera as pesquisas. Quando eu cheguei aqui, dia 8 de agosto, ele tinha 45% das intenções de voto. Depois desses fatos, ele subiu para 60%. Estranho, não acham? Essas pesquisas são publicadas em dois jornais. Segundo apurei, um recebe dinheiro do governo do estado – e não estou falando de verba publicitária. O dono do outro jornal é testa-de-ferro do Negão.

Agora, me ajudem a marcar a opção correta:

A) Amazonino é um fenômeno.
B) O povo da floresta tem burrice genética e QI de ameba.
C) As urnas reservam surpresas para Manaus.
D) As urnas não reservam surpresas para Manaus.
E) N.D.A.

O gabarito sai dia 3 de outubro.

PS5: As pesquisas que dão Amazonino na frente são do Ibope e do Vox Populi.

* Baré – serve para designar tudo que é relativo a Manaus. A depender de como é empregada, a palavra pode ser substantivo ("Aquele rapaz é um baré safado") ou adjetivo ("A comida baré é pesada, mas saborosa").

Saudades, abraços, beijos.

Monday, December 13, 2004

Mais Manaus...

Mais um textinho escrito em Manaus, logo na primeira semana.

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Notícias da floresta (17 de agosto de 2004)

Sim, é uma paráfrase do livro de Mário Sérgio Conti. Mas aqui não tem nenhuma informação ou revelação bombástica. E, atendendo a pedidos, o relato desta semana não será poético. Tentarei compensar em humor e apuração jornalística. Até porque, depois de uma semana em Manaus, já me esqueci das belezas naturais e começo a me irritar com as miudezas da cidade. E do povo.

No fim de semana, não tive sossego. Caminhada com chuva no sábado e com sol no domingo. Espero que no próximo eu tenha paz e possa ver mais coisas da cidade, como o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, a badalada Ponta Negra, algum hotel famoso no meio da floresta...

Aí vão as historinhas. Espero que gostem.

Bodum manauense - Dizem que Recife fede. Pois Manaus fede ao cubo. Esgoto encanado por aqui é tão raro quanto boto lilás. Somente 4% – isso mesmo – das casas têm rede de esgoto. O resultado é que nas ruas costumam-se ver riozinhos de água verde, fétida e bolorenta, correndo perto do meio-fio das calçadas. Um horror. E esse tantinho assim de rede de esgoto é do tempo dos ingleses, que no século 19 chegaram aqui para roubar mudas de seringueiras e contrabandeá-las para o Sudeste Asiático, o que decretaria a falência do Ciclo da Borracha alguns anos depois.

Povo leso 1 - Termômetro na Amazônia está acostumado a marcar 40 graus – à sombra. Graças a Tupã ainda não experimentei essa temperatura. Mas me disseram que setembro e outubro são meses infernais aqui. O lugar deve ficar parecendo uma chocadeira. Enfim, o fato é que o calor é tanto que acaba exercendo um poder anestésico nas pessoas – o que os nativos chamam de “leseira baré”.

Povo leso 2 - Nos primeiros dias, achei que fosse onda ou má-vontade de Júlio, Taíza e Paola. Mas, conforme fui estabelecendo contato com os manauenses, vi que é verdade. Experimente perguntar qualquer coisa a alguém desconhecido – tipo abordar uma pessoa na rua para pedir informação sobre onde fica a rua tal. Eles fazem uma pausa enigmática, te olham de cima abaixo com cara mista de tristeza, desprezo e irritação (por você tê-los incomodado), e dizem quase desfalecendo “Não sei”. Aqui ninguém sabe nada. Não sabem dizer qual ônibus tomar para o Centro, que rua devo pegar para ir à Zona Franca, se tem estacionamento ao lado do Teatro Amazonas – não sabem N-A-D-A sobre a própria cidade.

O comitê - No trabalho, está tranqüilo. O comitê central foi instalado em uma área central da cidade, num bairro chamado Parque 10. O QG funciona num sobrado que abrigava um escritório de advocacia. São salas amplas e confortavelmente geladas. O ar-condicionado funciona a plenos motores aqui, amenizando o calorão. O problema é quando eu resolvo ir lá fora para fumar um cigarro. Ao abrir a porta da recepção, tomo aquela baforada quente na cara. Divido uma sala grande com mais três jornalistas e Serginho – nosso garoto do apoio. Um fofo, bonito, cara de safado, peito largo... Coragem eu tenho, não tenho é sorte... (risos)

Marmitex - Ai que saudades do Brasília Shopping (especialmente da Dila), do Don Durica, do Aspargus, do Bali... Não tem restaurante, nem o shopping fica muito perto do meu trabalho. E como não tenho carro, nem sei andar de ônibus (não me arrisco a perguntar na rua como chegar ao shopping...) eu me rendo à comida que chega todo dia aqui para o povo do comitê. Numa bandejinha tipo marmitex, daquelas de papel alumínio, com divisórias para os alimentos, vem arroz, feijão, farofa e uma carninha – frango, geralmente. É horrível, mas é de graça e mata a fome legal. Se eu suportar essa bóia até o fim da empreitada, será uma economia e tanto. Mas aí, quando eu voltar para Brasília, vou passar um mês no Alice! E se eu for direto para Recife, serão trinta dias direto no Oficina do Sabor!

“Andando em coletivos” - Taí uma coisa que eu preciso reconhecer. Ônibus aqui é uma beleza. Não porque o sistema público de transporte de Manaus se parece com o de, sei lá, Londres. Mas porque boa parte dos coletivos aqui têm, o que?, adivinhem, vamos lá, um, dois, três... AR-CONDICIONADO!!! Por R$ 1,50 (a tarifa padrão) você anda em ônibus fresquinhos, embora nem sempre limpinhos. Mas só de esfriar a cuca, já é uma beleza.

Mix Manaus - Sexta passada saí pela primeira vez. Júlio me levou a uma das duas boates de Manaus. Não preciso especificar que é boate gay porque aqui isso não tem a menor importância. Vai homem, mulher, sapatão, viado, cafuçu, travesti, manco, cego, surdo, pobre, rico, preto, branco, gordo, magro, baixo, alto, Xavante, Tapuia... o escambau a quatro! É um mistura louca, o que acaba sendo legal, porque dá a sensação de que todo mundo aceita as diferenças. Mas é ruim, também, porque você pode pisar em terreno minado. Houve, por exemplo, quem perdesse 40 minutos da noite paquerando uma “pessoa” bacana para, no final, descobrir que era HT (tecla sap: HeTerossexual). Paciência, acontece...

Tragédia grega - Essa boate chama-se Narciso e fica no Centro. Na entrada, caí na risada, porque tem uma enorme estátua de estilo grego segurando um espelhinho de Iemanjá. Parece alegoria de escola de samba de quinta categoria. PODRE! As pessoas passam a noite numa rampa, todas tronchas por conta do piso inclinado, ouvindo uma música abafada, tomando cerveja morna, e aspirando a poeira que enormes ventiladores levantam do chão. Enfim, odiei esse lugar, que foi montado em um cinema antigo. Duvido que a Igreja Universal já não esteja de olho, porque eles adoram instalar seus templos em cinemas velhos... Não volto lá nessa encarnação.

Só se for A-2 - No sábado, fomos à outra boate. Na tentativa de esquecer o fiasco da noite anterior, pegamos um ônibus e fomos parar na A-2 – também no Centro. Gostei. Lembra a antiga Cats, do Recife Antigo. Tem quatro pavimentos, é bem decorada, climatizada, a cerveja é gelada, a musica é boa. Sinto que vai ser meu refúgio. Não paquerei ninguém, estava a fim de dançar. Mas cometi uma gafe HORROROSA!

Cinzeiro de rodas - No meio da muvuca da boate, estávamos eu, Júlio e outros dois amigos dele conversando no bar. Com o braço direito escorado no balcão e o esquerdo segurando o cigarro, eu tagarelava animadamente com o pessoal. Aí, dei um trago no branquinho e bati a cinza, sem olhar para o lado, fitando meu interlocutor. De repente, sinto umas cutucadas na altura do quadril, como se fossem tapas. E percebo que alguém reclama alguma coisa, que eu não conseguia ouvir por conta da música alta. Quando eu olho de lado para ver o que era, vejo que BATI A CINZA DO CIGARRO EM CIMA DE UMA MULHER NUMA CADEIRA DE RODAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Pedi milhões de desculpas e corri pro banheiro para rir. Meu Deus, que vergonha, que vexame!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Bom, meus queridos, é isso. Depois escrevo mais. Abraços, beijos, saudades.


Tuesday, December 07, 2004

Manaus, de novo

Gente,

Começo a republicar os textos que escrevi quando estava em Manaus. Muita gente gostou e me pediu para fazer isso. Então, como esse blog é meu e de vocês, aí está. Antes, um rápido comentário:

Esse texto foi concebido quando eu sobrevoava Manaus, chegando de Brasília, num domingo de sol, aos oito dias de agosto de 2004. Foi a primeira e – literalmente – superficial impressão que tive da cidade. Dali do alto, a bordo de um airbus da Varig, tudo parecia mágico, encantador. Afinal, era um mundo totalmente novo – povoado, na minha cabeça, com todos os clichês que o resto do país e do mundo tem sobre a Amazônia.

Algo muito parecido com a visão que Dona Maria, A Louca, mãe de Dom João VI, tinha das então recém-descobertas terras tupiniquins – um lugar cheio de mato e bicho para tudo que é lado. Depois, pouco depois, eu perceberia que Manaus não era tão linda assim. Uma cidade com muita coisa boa, é verdade. Mas que também tinha mazelas horríveis e costumes intragáveis. Pessoal de Manaus, perdoe se parece indelicado o que escrevi. E muitas vezes é, reconheço. Peço desculpas, como já disse, se fui ranzinza e arrogante demais. Mas essas foram algumas das impressões que tive da cidade. Umas dessas impressões, é verdade, eu já consegui reverter – ou rever. Resumindo, não é que odiei Manaus. É que apenas não me senti totalmente em casa aí – a despeito dos fantásticos “barés”* que conheci.

E hoje, dois meses depois de ter voltado para Brasília, já não descarto uma volta a Manaus para rever todos vocês, tomar um chope no Eldorado, passear no Amazonas Shopping, pegar ônibus na Djalma Batista, passear de canoa pelos igarapés e igapós rumo a um hotel de selva, andar na feirinha de artesanato da Eduardo Ribeiro aos domingos, tomar sorvete de açaí e cupuaçu da Glacial, comer jaraqui, pacu, tambaqui (só faltou matrixã)...

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Manáos (9 de agosto de 2004)

De cima, o verde da Amazônia se espraia até a vista não alcançar. As artérias da floresta são rios sinuosos, que rasgam a mata até encontrarem outros pelo caminho. Assim passei todas as duas horas e quarenta minutos de vôo de Brasília até Manaus – observando a região na qual os desbravadores espanhóis de cinco séculos atrás acreditavam que existiam o Eldorado.

Suspeito que estavam certos. A descida do avião rumo ao pouso na pista do aeroporto Eduardo Gomes revela um rio de largura quase infinita. No meio do oceano doce, os motores das embarcações típicas deixam um bordado branco no escuro rio Negro que, dizem os nativos, tem água cor de carvão por conta dos dejetos da selva – restos de folhas e madeira que vão se decompondo ao longo do tempo, deixando a água sempre enegrecida. Do alto do céu amazônico, só pude exclamar. “Meu Deus, que coisa linda!”

Logo depois do desembarque, fui para a casa de Taíza – o metro e meio de mulher mais forte que conheço. Um motorista com nome de banco me esperava. Era Itaú, caboclo das barrancas do rio Madeira, que me levou até a casa de minha querida amiga. Lá, reencontrei Júlio, outro guerreiro e querido amigo. André, o filho de Taíza, já com oito anos e com a história da região na ponta da língua. É muito para uma criança que nasceu em Recife e que veio para Manaus há apenas seis meses. Também revi Paola, sobrinha de Taíza. E conheci Gerard, espanhol como os conquistadores quinhentistas, natural de Barcelona, marido da baixinha.

Depois de algum papo, fomos dar a primeira volta pela cidade. O calor e a umidade não eram nada diferentes dos de Recife. Mas me advertiram de que vão piorar. Enfim, não sou feito de manteiga, logo não tenho medo de derreter na modorra equatorial.

Com Júlio ao volante, a janela do carro me revelou uma Manaus como qualquer outra grande cidade brasileira. Rica de um lado, miserável de outro. Mais miserável do que rica, como sempre. Largas avenidas são cruzadas por ruazinhas que me lembram as de Olinda. Ladeiras, há muitas. Para contrastar com a idéia que eu tinha de uma Manaus plana, como Brasília. E prédios colossais, com vidros espelhados, erguem-se sem pena ao lado de malocas, casebres e palafitas de madeira.

Vi dois pontos turísticos no domingo. O indescritível Teatro Amazonas foi o primeiro. De longe, avista-se a imponente cúpula decorada com uma espécie de mosaico, vinda da Turquia. É um exemplo vivo de como a seiva dos seringais se transformou em rios de dinheiro no século 19, quando o Ciclo da Borracha trouxe fartura para essa terra pelo menos 90% pobre em quase toda sua vastidão (dizem até que "os barões da borracha tinham a ousadia de acender charutos com notas de quinhentos mil réis", como aprendi na letra de um samba-enredo dos anos 90). Em seguida, fizemos uma rápida visita ao porto, onde se tem mais de perto uma noção de como o rio Negro é gigantesco. Quase não se vê a margem do lado de lá, com árvores que parecem miniaturas.

Aí bateu a fome e fomos comprar algumas coisas para comer. No Shopping Amazonas, maior da capital, pude ver os nativos mais de perto, já que durante o passeio de turista as ruas estavam vazias. É uma gente bonita, de pele curtida ao sol, mas que, pelo que me contaram meus amigos, é também cheia de recalques.

Fui advertido, por exemplo, que não devo chamá-los de manauaras, como ensina o mais prosaico dicionário de gentílicos. São manauenses. Ouvi dizer que não gostam do primeiro adjetivo pátrio porque lembra muito a raiz indígena. Que bobagem, eu pensei. Primeiro porque deviam se orgulhar de ter sangue de índio correndo nas veias. Segundo porque não tem como negar que os traços do rosto e os olhos meio rasgados denunciam o parentesco com os pajés, misturado também com muito do negro.

Aí, percebi outra coisa que me deixou intrigado. Passeando pelo shopping, notei que quase não existe mulher que não tenha o cabelo espichado. Não bastasse renegarem a ancestralidade indígena, querem a todo custo ignorar a influência dos negros. É um festival de madeixas alisadas a ferro e pintadas de loiro ou ruivo. Já que não têm como mudar o fenótipo da pele e das feições, mudam o dos cabelos. E os homens não ficam de fora. Seguem o ritual da prancha capilar e das tinturas. No mínimo engraçado.

Bom, chega de antropologia. Do shopping, voltamos para a casa de Taíza. Cozinhei espaguete com molho de salsicha, milho verde e ervilhas. Todo mundo comeu até morrer. Descemos para a piscina, tomamos algumas cervejas, pusemos a fofoca em dia. E acabou o domingo, meu primeiro de 90 dias em Manaus.

Hoje, segunda-feira, tive a primeira reunião de trabalho, com a candidata a prefeita. Será desafiador, mas bacana. Escrevo esse email do jornal A Critica, que Taíza dirige. Agora, vou ao comitê central, que será minha sede durante toda a campanha. Lá é que eu vou ficar sabendo o número do celular e do telefone fixo, para passar a vocês. À noite, levarei minhas coisas para a casa de Júlio, com quem vou morar durante esse tempo.

Por enquanto, é só. Torçam por mim. Abraços e beijos a todos. Saudades,

* Manáos - tribo da margem esquerda do rio Negro, que deu nome à cidade. Significa "Mãe de Deus".


Thursday, December 02, 2004

Elisa Lucinda

De ontem pra hoje, dei pra gostar dessa moça aí. Não que ela seja novidade. Já li algumas coisas bacanas dela. Mas é que ontem, essa capixaba de 40 e poucos anos e dona de uma poesia simples, emocionada e relista, quase como uma crônica, conseguiu me comover. Foi no show do Dia Mundial de Luta contra a Aids, do qual ela foi apresentadora.

Acordei com fome de Elisa Lucinda. E fui logo me nutrir de alguns poemas dela, que achei vasculhando na internet. Vou dividir o pão com vocês. Em pílulas, em tópicos separados, pra não cansar.

Espero que gostem.

Beijos

O Poema do Semelhante

O Poema do Semelhante

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
Eh mundão
todo mundo beija todo mundo almeja
todo mundo deseja todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele,
o Deus da par-essência
O Deus da essência par.

Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança

(Elisa Lucinda)

Mulata exportação

Mulata exportação

Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!

Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!

(Monto casa procê mas ninguém pode saber,
entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol,
entendeu meu gelol?

Rebola bem meu bem-querer,
sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada.
Vem sem ter que me mexer

Em mim tu esqueces tarefas,
favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, v
em negra, me ama, me colore
Vem, nega, vem me arrasar,
depois te levo pra gente sambar.

Imaginem:
Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse:
"Seu delegado..."
E o delegado piscou.

Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual...
Eu disse:
"Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura"!

Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
Que vai libertar uma negra:

Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.

Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
E tu te lembras da Casa-Grande
E vamos juntos escrever sinceramente outra história

Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
Porque não é dançando samba
Que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!

Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!

Porque deixar de ser racista, meu amor,
Não é comer uma mulata!

(Elisa Lucinda)

Cor-respondência

Cor-respondência

Remeta-me
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.

(Elisa Lucinda)

Texto para uma separação

Texto para uma separação

Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui...

Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?

Vem cá, não vai sair assim...
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.

Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.

Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.

Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co'a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?

(Elisa Lucinda)

Aviso da Lua que Menstrua

Aviso da Lua que Menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia

Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.

Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.

Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

(Elisa Lucinda)

Monday, November 29, 2004

Oi, todo mundo.

Queridos, eu devo estar pior da cabeça. Porque não basta o tanto de coisa que tenho para fazer, agora inventei de criar um blog. Talvez seja saudade dos tempos de repórter. Vamos se vai durar. E se vai ter ibope.

Minha idéia é escrever - e debater com vocês - crônicas, resenhas, comentários, desabafos e o que mais me der na telha. Por enquanto, com as coisas pegando fogo aqui no trabalho, vou desvirginar o "Conversa Besta" (ou Cunvessabesta!, como diz o sotaque pernambucano) com um textículo bacana que recebi de Ana Cláudia, amiga daí de Recife.

É bonitinho, criativo e chega a emocionar. Talvez porque eu já tenha feito um monte de coisas que o camarada escreveu. Ou tenha tido vontade de fazer, sei lá... Espero que gostem. E que me desculpem se acharem piegas... Aí está:

[[]]

RH

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Em um processo seletivo da Volkswagen, uma das etapas era uma redação sobre o tema "Descreva em poucas linhas a sua experiência". Vejam a redação de quem foi selecionado:

Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com vela.
Já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista..
Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.
Já passei trote por telefone.
Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.
Já roubei beijo.
Já confundi sentimentos.
Já peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em arvore pra roubar fruta, já caí da escada.
Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.
Já corri pra não deixar alguém chorando, já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar
Já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um "para sempre" pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração.
E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita:

"- Qual sua experiência?".

Essa pergunta ecoa no meu cérebro: "experiência...experiência..."
Será que ser "plantador de sorrisos" é uma boa experiência?
Não, talvez eles não saibam ainda colher sonhos!"
Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta:

"Experiência? Quem a tem, se a todo momento tudo se renova?"

(Autor desconhecido)

Sunday, November 28, 2004

Aqui estou eu.

...arrumando sarna pra me coçar...