Conversa besta

Monday, December 13, 2004

Mais Manaus...

Mais um textinho escrito em Manaus, logo na primeira semana.

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Notícias da floresta (17 de agosto de 2004)

Sim, é uma paráfrase do livro de Mário Sérgio Conti. Mas aqui não tem nenhuma informação ou revelação bombástica. E, atendendo a pedidos, o relato desta semana não será poético. Tentarei compensar em humor e apuração jornalística. Até porque, depois de uma semana em Manaus, já me esqueci das belezas naturais e começo a me irritar com as miudezas da cidade. E do povo.

No fim de semana, não tive sossego. Caminhada com chuva no sábado e com sol no domingo. Espero que no próximo eu tenha paz e possa ver mais coisas da cidade, como o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, a badalada Ponta Negra, algum hotel famoso no meio da floresta...

Aí vão as historinhas. Espero que gostem.

Bodum manauense - Dizem que Recife fede. Pois Manaus fede ao cubo. Esgoto encanado por aqui é tão raro quanto boto lilás. Somente 4% – isso mesmo – das casas têm rede de esgoto. O resultado é que nas ruas costumam-se ver riozinhos de água verde, fétida e bolorenta, correndo perto do meio-fio das calçadas. Um horror. E esse tantinho assim de rede de esgoto é do tempo dos ingleses, que no século 19 chegaram aqui para roubar mudas de seringueiras e contrabandeá-las para o Sudeste Asiático, o que decretaria a falência do Ciclo da Borracha alguns anos depois.

Povo leso 1 - Termômetro na Amazônia está acostumado a marcar 40 graus – à sombra. Graças a Tupã ainda não experimentei essa temperatura. Mas me disseram que setembro e outubro são meses infernais aqui. O lugar deve ficar parecendo uma chocadeira. Enfim, o fato é que o calor é tanto que acaba exercendo um poder anestésico nas pessoas – o que os nativos chamam de “leseira baré”.

Povo leso 2 - Nos primeiros dias, achei que fosse onda ou má-vontade de Júlio, Taíza e Paola. Mas, conforme fui estabelecendo contato com os manauenses, vi que é verdade. Experimente perguntar qualquer coisa a alguém desconhecido – tipo abordar uma pessoa na rua para pedir informação sobre onde fica a rua tal. Eles fazem uma pausa enigmática, te olham de cima abaixo com cara mista de tristeza, desprezo e irritação (por você tê-los incomodado), e dizem quase desfalecendo “Não sei”. Aqui ninguém sabe nada. Não sabem dizer qual ônibus tomar para o Centro, que rua devo pegar para ir à Zona Franca, se tem estacionamento ao lado do Teatro Amazonas – não sabem N-A-D-A sobre a própria cidade.

O comitê - No trabalho, está tranqüilo. O comitê central foi instalado em uma área central da cidade, num bairro chamado Parque 10. O QG funciona num sobrado que abrigava um escritório de advocacia. São salas amplas e confortavelmente geladas. O ar-condicionado funciona a plenos motores aqui, amenizando o calorão. O problema é quando eu resolvo ir lá fora para fumar um cigarro. Ao abrir a porta da recepção, tomo aquela baforada quente na cara. Divido uma sala grande com mais três jornalistas e Serginho – nosso garoto do apoio. Um fofo, bonito, cara de safado, peito largo... Coragem eu tenho, não tenho é sorte... (risos)

Marmitex - Ai que saudades do Brasília Shopping (especialmente da Dila), do Don Durica, do Aspargus, do Bali... Não tem restaurante, nem o shopping fica muito perto do meu trabalho. E como não tenho carro, nem sei andar de ônibus (não me arrisco a perguntar na rua como chegar ao shopping...) eu me rendo à comida que chega todo dia aqui para o povo do comitê. Numa bandejinha tipo marmitex, daquelas de papel alumínio, com divisórias para os alimentos, vem arroz, feijão, farofa e uma carninha – frango, geralmente. É horrível, mas é de graça e mata a fome legal. Se eu suportar essa bóia até o fim da empreitada, será uma economia e tanto. Mas aí, quando eu voltar para Brasília, vou passar um mês no Alice! E se eu for direto para Recife, serão trinta dias direto no Oficina do Sabor!

“Andando em coletivos” - Taí uma coisa que eu preciso reconhecer. Ônibus aqui é uma beleza. Não porque o sistema público de transporte de Manaus se parece com o de, sei lá, Londres. Mas porque boa parte dos coletivos aqui têm, o que?, adivinhem, vamos lá, um, dois, três... AR-CONDICIONADO!!! Por R$ 1,50 (a tarifa padrão) você anda em ônibus fresquinhos, embora nem sempre limpinhos. Mas só de esfriar a cuca, já é uma beleza.

Mix Manaus - Sexta passada saí pela primeira vez. Júlio me levou a uma das duas boates de Manaus. Não preciso especificar que é boate gay porque aqui isso não tem a menor importância. Vai homem, mulher, sapatão, viado, cafuçu, travesti, manco, cego, surdo, pobre, rico, preto, branco, gordo, magro, baixo, alto, Xavante, Tapuia... o escambau a quatro! É um mistura louca, o que acaba sendo legal, porque dá a sensação de que todo mundo aceita as diferenças. Mas é ruim, também, porque você pode pisar em terreno minado. Houve, por exemplo, quem perdesse 40 minutos da noite paquerando uma “pessoa” bacana para, no final, descobrir que era HT (tecla sap: HeTerossexual). Paciência, acontece...

Tragédia grega - Essa boate chama-se Narciso e fica no Centro. Na entrada, caí na risada, porque tem uma enorme estátua de estilo grego segurando um espelhinho de Iemanjá. Parece alegoria de escola de samba de quinta categoria. PODRE! As pessoas passam a noite numa rampa, todas tronchas por conta do piso inclinado, ouvindo uma música abafada, tomando cerveja morna, e aspirando a poeira que enormes ventiladores levantam do chão. Enfim, odiei esse lugar, que foi montado em um cinema antigo. Duvido que a Igreja Universal já não esteja de olho, porque eles adoram instalar seus templos em cinemas velhos... Não volto lá nessa encarnação.

Só se for A-2 - No sábado, fomos à outra boate. Na tentativa de esquecer o fiasco da noite anterior, pegamos um ônibus e fomos parar na A-2 – também no Centro. Gostei. Lembra a antiga Cats, do Recife Antigo. Tem quatro pavimentos, é bem decorada, climatizada, a cerveja é gelada, a musica é boa. Sinto que vai ser meu refúgio. Não paquerei ninguém, estava a fim de dançar. Mas cometi uma gafe HORROROSA!

Cinzeiro de rodas - No meio da muvuca da boate, estávamos eu, Júlio e outros dois amigos dele conversando no bar. Com o braço direito escorado no balcão e o esquerdo segurando o cigarro, eu tagarelava animadamente com o pessoal. Aí, dei um trago no branquinho e bati a cinza, sem olhar para o lado, fitando meu interlocutor. De repente, sinto umas cutucadas na altura do quadril, como se fossem tapas. E percebo que alguém reclama alguma coisa, que eu não conseguia ouvir por conta da música alta. Quando eu olho de lado para ver o que era, vejo que BATI A CINZA DO CIGARRO EM CIMA DE UMA MULHER NUMA CADEIRA DE RODAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Pedi milhões de desculpas e corri pro banheiro para rir. Meu Deus, que vergonha, que vexame!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Bom, meus queridos, é isso. Depois escrevo mais. Abraços, beijos, saudades.