Conversa besta

Tuesday, December 07, 2004

Manaus, de novo

Gente,

Começo a republicar os textos que escrevi quando estava em Manaus. Muita gente gostou e me pediu para fazer isso. Então, como esse blog é meu e de vocês, aí está. Antes, um rápido comentário:

Esse texto foi concebido quando eu sobrevoava Manaus, chegando de Brasília, num domingo de sol, aos oito dias de agosto de 2004. Foi a primeira e – literalmente – superficial impressão que tive da cidade. Dali do alto, a bordo de um airbus da Varig, tudo parecia mágico, encantador. Afinal, era um mundo totalmente novo – povoado, na minha cabeça, com todos os clichês que o resto do país e do mundo tem sobre a Amazônia.

Algo muito parecido com a visão que Dona Maria, A Louca, mãe de Dom João VI, tinha das então recém-descobertas terras tupiniquins – um lugar cheio de mato e bicho para tudo que é lado. Depois, pouco depois, eu perceberia que Manaus não era tão linda assim. Uma cidade com muita coisa boa, é verdade. Mas que também tinha mazelas horríveis e costumes intragáveis. Pessoal de Manaus, perdoe se parece indelicado o que escrevi. E muitas vezes é, reconheço. Peço desculpas, como já disse, se fui ranzinza e arrogante demais. Mas essas foram algumas das impressões que tive da cidade. Umas dessas impressões, é verdade, eu já consegui reverter – ou rever. Resumindo, não é que odiei Manaus. É que apenas não me senti totalmente em casa aí – a despeito dos fantásticos “barés”* que conheci.

E hoje, dois meses depois de ter voltado para Brasília, já não descarto uma volta a Manaus para rever todos vocês, tomar um chope no Eldorado, passear no Amazonas Shopping, pegar ônibus na Djalma Batista, passear de canoa pelos igarapés e igapós rumo a um hotel de selva, andar na feirinha de artesanato da Eduardo Ribeiro aos domingos, tomar sorvete de açaí e cupuaçu da Glacial, comer jaraqui, pacu, tambaqui (só faltou matrixã)...

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Manáos (9 de agosto de 2004)

De cima, o verde da Amazônia se espraia até a vista não alcançar. As artérias da floresta são rios sinuosos, que rasgam a mata até encontrarem outros pelo caminho. Assim passei todas as duas horas e quarenta minutos de vôo de Brasília até Manaus – observando a região na qual os desbravadores espanhóis de cinco séculos atrás acreditavam que existiam o Eldorado.

Suspeito que estavam certos. A descida do avião rumo ao pouso na pista do aeroporto Eduardo Gomes revela um rio de largura quase infinita. No meio do oceano doce, os motores das embarcações típicas deixam um bordado branco no escuro rio Negro que, dizem os nativos, tem água cor de carvão por conta dos dejetos da selva – restos de folhas e madeira que vão se decompondo ao longo do tempo, deixando a água sempre enegrecida. Do alto do céu amazônico, só pude exclamar. “Meu Deus, que coisa linda!”

Logo depois do desembarque, fui para a casa de Taíza – o metro e meio de mulher mais forte que conheço. Um motorista com nome de banco me esperava. Era Itaú, caboclo das barrancas do rio Madeira, que me levou até a casa de minha querida amiga. Lá, reencontrei Júlio, outro guerreiro e querido amigo. André, o filho de Taíza, já com oito anos e com a história da região na ponta da língua. É muito para uma criança que nasceu em Recife e que veio para Manaus há apenas seis meses. Também revi Paola, sobrinha de Taíza. E conheci Gerard, espanhol como os conquistadores quinhentistas, natural de Barcelona, marido da baixinha.

Depois de algum papo, fomos dar a primeira volta pela cidade. O calor e a umidade não eram nada diferentes dos de Recife. Mas me advertiram de que vão piorar. Enfim, não sou feito de manteiga, logo não tenho medo de derreter na modorra equatorial.

Com Júlio ao volante, a janela do carro me revelou uma Manaus como qualquer outra grande cidade brasileira. Rica de um lado, miserável de outro. Mais miserável do que rica, como sempre. Largas avenidas são cruzadas por ruazinhas que me lembram as de Olinda. Ladeiras, há muitas. Para contrastar com a idéia que eu tinha de uma Manaus plana, como Brasília. E prédios colossais, com vidros espelhados, erguem-se sem pena ao lado de malocas, casebres e palafitas de madeira.

Vi dois pontos turísticos no domingo. O indescritível Teatro Amazonas foi o primeiro. De longe, avista-se a imponente cúpula decorada com uma espécie de mosaico, vinda da Turquia. É um exemplo vivo de como a seiva dos seringais se transformou em rios de dinheiro no século 19, quando o Ciclo da Borracha trouxe fartura para essa terra pelo menos 90% pobre em quase toda sua vastidão (dizem até que "os barões da borracha tinham a ousadia de acender charutos com notas de quinhentos mil réis", como aprendi na letra de um samba-enredo dos anos 90). Em seguida, fizemos uma rápida visita ao porto, onde se tem mais de perto uma noção de como o rio Negro é gigantesco. Quase não se vê a margem do lado de lá, com árvores que parecem miniaturas.

Aí bateu a fome e fomos comprar algumas coisas para comer. No Shopping Amazonas, maior da capital, pude ver os nativos mais de perto, já que durante o passeio de turista as ruas estavam vazias. É uma gente bonita, de pele curtida ao sol, mas que, pelo que me contaram meus amigos, é também cheia de recalques.

Fui advertido, por exemplo, que não devo chamá-los de manauaras, como ensina o mais prosaico dicionário de gentílicos. São manauenses. Ouvi dizer que não gostam do primeiro adjetivo pátrio porque lembra muito a raiz indígena. Que bobagem, eu pensei. Primeiro porque deviam se orgulhar de ter sangue de índio correndo nas veias. Segundo porque não tem como negar que os traços do rosto e os olhos meio rasgados denunciam o parentesco com os pajés, misturado também com muito do negro.

Aí, percebi outra coisa que me deixou intrigado. Passeando pelo shopping, notei que quase não existe mulher que não tenha o cabelo espichado. Não bastasse renegarem a ancestralidade indígena, querem a todo custo ignorar a influência dos negros. É um festival de madeixas alisadas a ferro e pintadas de loiro ou ruivo. Já que não têm como mudar o fenótipo da pele e das feições, mudam o dos cabelos. E os homens não ficam de fora. Seguem o ritual da prancha capilar e das tinturas. No mínimo engraçado.

Bom, chega de antropologia. Do shopping, voltamos para a casa de Taíza. Cozinhei espaguete com molho de salsicha, milho verde e ervilhas. Todo mundo comeu até morrer. Descemos para a piscina, tomamos algumas cervejas, pusemos a fofoca em dia. E acabou o domingo, meu primeiro de 90 dias em Manaus.

Hoje, segunda-feira, tive a primeira reunião de trabalho, com a candidata a prefeita. Será desafiador, mas bacana. Escrevo esse email do jornal A Critica, que Taíza dirige. Agora, vou ao comitê central, que será minha sede durante toda a campanha. Lá é que eu vou ficar sabendo o número do celular e do telefone fixo, para passar a vocês. À noite, levarei minhas coisas para a casa de Júlio, com quem vou morar durante esse tempo.

Por enquanto, é só. Torçam por mim. Abraços e beijos a todos. Saudades,

* Manáos - tribo da margem esquerda do rio Negro, que deu nome à cidade. Significa "Mãe de Deus".