Manaus (III)
Rapidinho, porque eu tô com pressa. Acordei de ovo virado hoje e já bati boca com a chefia. Pra eu mandar tomar no cú , tá faltando bem pouquinho.
Esse texto trata de política. Já está meio fora de tempo, porque foi escrito pouco antes das eleições. Mas se estiverem a fim de ler, tem uma pequena análise da situação política de Manaus e do Amazonas.
Abraços
RH
============================================
Queridos todos, 31/8
Desculpem mais um email assim, coletivo, mas é como dá para escrever.
Três semanas depois, Manaus já me assusta. Nada a ver com observações antropológicas, climatológicas, geológicas, morfológicas ou viadológicas. Isso eu tenho tirado de letra e até me diverte. O que me estarrece nos últimos dias tem a ver com política, lei, status-quo.
A corrupção, a rapinagem, o convencimento pela propina, a cretinice, o mau-caratismo e falta de respeito generalizada, lastreados por um incrível e inabalável conformismo, parecem ter forjado o caráter desse povo. As exceções – que felizmente existem, como em qualquer regra – não redimem o descaramento com o qual os assuntos são tratados aqui. Do mais prosaicos aos mais importantes.
Prosaico – Meu queixo caiu quando, no ônibus, um sujeito de seus 40 e poucos anos, sentado na fileira do lado, raspou o peito com a garganta e concluiu com uma cusparada catarrenta no assoalho. Não me contive e retruquei, verde de nojo, quase botando os bofes para fora – "Que homem nojento!". Aí, uma moça que estava sentada no mesmo banco que eu indignou-se – "Que frescura! E você queria que ele cuspisse aonde (sic)?" É assim e eles acham normal.
Importante – Agora é uma questão jornalística. A ética, que eu teimo em acreditar existir e ser imprescindível no exercício da minha (e de qualquer outra) profissão, é ferida de morte todos os dias por boa parte dos comunicadores barés*. É comum, e muito, jornalista aqui trabalhar como assessor do governo do estado ou de políticos de manhã e à tarde atuarem como repórteres nas redações. O cúmulo maior: uma subeditora (!) de Política (!!) de um jornal (!!!) é assessora de imprensa de um senador da República (!!!!!)...
Minha Nossa Senhora do Bom Jornalismo, sei que a senhora costuma operar poucos milagres, mas interceda, ó santinha querida, porque se isso não é antiético, não sei mais o que diabos é. Barbosa Lima Sobrinho deve estar em cólicas na cova. Eles argumentam que ganham pouco, que sempre foi assim, e que daqui pra frente nada vai ser diferente.
E isso é natural, é estabelecido, é status-quo, quase uma instituição local. Quem for doido que discorde, que ache errado, que considere inadequado. Pois eu sou doido, acho tudo isso e assumo.
Em retaliação, já virei assunto na cidade, vejam só! Primeiro, especularam quem sou eu, de onde venho e para fazer o que. Assim que descobrirem, deverão se ocupar em saber o que faço na cama... risos...
No mais, a campanha eleitoral segue rente ao chão, bem rasteira, e os níveis de tensão e adrenalina começam a ficar insalubres. É muito roubo, muita manipulação, muito comprometimento político das supostas autoridades eleitorais... Enfim, aquilo tudo que é comum a qualquer pleito. Só que aqui parece ser pior.
Porque um grupo político que faz revezamento de cargos público em quatro estilos – governador, prefeito, senador e deputado federal – (OK, é o espírito olímpico de Atenas 2004) está no poder há um quarto de século não quer largar o osso. Nem as tetas. Quem são eles? O candidato a prefeito Amazonino Mendes (PFL), o senador Gilberto Mestrinho (PMDB) e o governador Eduardo Braga (PPS).
Amazonino – Candidato a prefeito pelo PFL, é também conhecido como Negão, ou Abelha (seu símbolo de campanha é uma abelhinha boboca e viadérrima que encanta as criancinhas). Tem várias pessoas ligadas a ele que estão envolvidas na Operação Albatroz, da Polícia Federal, que prendeu 20 pessoas e já indiciou outras 50 acusadas de participar de um esquema de corrupção montado há dois anos para fraudar licitações públicas do Estado. Pelo ralo, já escorreram, pelo menos R$ 500 milhões.
Até agora, os envolvidos (para citar os tambaquis graúdos, não os pacus miúdos) são:
- um ex-secretário de Fazenda de Braga e Amazonino (na época em que este era governador);
- um ex-secretário de Infra-estrutura, que atualmente é o candidato a vice na chapa de Amazonino;
- os atuais secretários dessas duas pastas;
- o presidente da Comissão Geral de Licitações do Estado, que deixou o cargo;
- um vereador que é secretário de governo atualmente;
- um deputado estadual apontado como líder do esquema, dono de várias empresas que "ganhavam" as licitações, mas em cujos contratos sociais aparecem nomes de laranjas;
PS1: Amazonino já foi contra Mestrinho e Braga. Hoje, é aliado dos dois.
Mestrinho – Seu indefectível bigodinho o faz parecer com o Amigo da Onça, o personagem dos quadrinhos criados pelo pernambucano Péricles Maranhão, nos anos 40 do século passado. É padrinho político do deputado apontado como líder do esquema desmontado pela Operação Albatroz.
PS2: Já foi contra Amazonino e Braga. Hoje, é aliado dos dois.
Braga – Boa pinta, cara de bom moço, tenta há 20 dias convencer a opinião pública de que não sabia de nada do escândalo que corroeu as finanças e a credibilidade de seu governo.
PS3: Já foi contra Amazonino e Mestrinho. Hoje, é aliado dos dois.
Mestrinho, é verdade, está afastado do foco desse rebuceteio. Está doentinho. Fez cateterismo dia desses. Os outros estão envolvidos até a medula. Juram inocência. Alegam perseguição do governo Lula. São probos, honestos, ilibados. Exemplos de homens públicos.
Então, tá. Mas a mim eles não conseguiram convencer. Mas quem sou eu mesmo? Um coitado de um jornalista liso e (ainda) meio romântico, que só quer fazer seu trabalho corretamente (sempre), ganhar sua grana (bastante), e picar a mula daqui (rapidinho)!
Como se diz lá no Nordeste, quando algo demora muito para acontecer, "chega o Natal, mas não chega 3 de outubro (ou 24, se houver segundo turno)"!
Ah, antes que eu me esqueça, PS4: com toda essa merda fedendo, Amazonino lidera as pesquisas. Quando eu cheguei aqui, dia 8 de agosto, ele tinha 45% das intenções de voto. Depois desses fatos, ele subiu para 60%. Estranho, não acham? Essas pesquisas são publicadas em dois jornais. Segundo apurei, um recebe dinheiro do governo do estado – e não estou falando de verba publicitária. O dono do outro jornal é testa-de-ferro do Negão.
Agora, me ajudem a marcar a opção correta:
A) Amazonino é um fenômeno.
B) O povo da floresta tem burrice genética e QI de ameba.
C) As urnas reservam surpresas para Manaus.
D) As urnas não reservam surpresas para Manaus.
E) N.D.A.
O gabarito sai dia 3 de outubro.
PS5: As pesquisas que dão Amazonino na frente são do Ibope e do Vox Populi.
* Baré – serve para designar tudo que é relativo a Manaus. A depender de como é empregada, a palavra pode ser substantivo ("Aquele rapaz é um baré safado") ou adjetivo ("A comida baré é pesada, mas saborosa").
Saudades, abraços, beijos.

<< Home